Desporto Paralímpico: a competição (ainda) faz muita espécie
Introdução
Há quem veja o desporto adaptado como terapia.
Há quem o veja como integração.
Mas para muitos atletas — e para quem vive o desporto Paralímpico por dentro — ele é muito mais do que isso: é superação, exigência, competição e identidade.
Nesta edição, damos voz a um atleta de elite de basquetebol em cadeira de rodas, representante da seleção nacional e fundador do Basket Clube de Gaia, que nos convida a olhar o desporto Paralímpico sem filtros — com espírito crítico, paixão e urgência.
Porque o que está em causa não é só a inclusão… é o direito à excelência.
A competição (ainda) faz muita espécie
Os benefícios do desporto, em geral, trespassaram há muito a barreira do mundo académico e chegou ao senso comum, e ainda bem, a ideia de que “praticar desporto faz bem”.
Um dado que não impede Portugal estar perto da cauda da Europa, no que à taxa de prática desportiva diz respeito.
Confesso que tenho alguma “comichão” quando o desporto adaptado — ou melhor, o desporto Paralímpico — vem à mesa apenas para se falar do seu potencial terapêutico, recreativo ou inclusivo.
Aliás, inclusão é das palavras mais brandidas da década, de tal ordem que já esvaziámos o seu verdadeiro sentido.

O desporto deu-me mais do que a si próprio
Faço a seguinte viagem ao passado para se compreender que, por hoje ser atleta de alta competição (já não sou, mas treino como tal), não significa que despreze a capacidade do desporto unir, tirar pessoas com deficiência de casa, devolver auto-estima, fomentar a socialização e a integração noutros contextos para lá do desportivo.
Sou prova viva de quão bem faz o desporto, embora a semente obsessiva-competitiva já residisse em mim desde tenra idade, quando bajulava e imitava do alto do chão as estiradas do Vítor Baía ou do Peter Schmeichel.
Os meus primeiros pequenos voos de autonomia descolaram na APD Porto, a primeira equipa onde joguei Basquetebol em cadeira de rodas, com 16 anos.
Lá conheci o Sílvio, o Rui, a Bina, o Fernando, o Henrique, o Abel, entre tantos outros, que escancararam a minha perceção de capacidade — do que uma pessoa com deficiência podia fazer.
Conduzir sozinho, trabalhar, namorar, ser pai ou mãe, olhar-se ao espelho sem renúncia ao que menos gostava de ver.
Comprei a minha primeira cadeira de rodas de liga leve, comecei logo a pensar em tirar a carta, em perder a vergonha (devagarinho) de abordar as primeiras raparigas.
Por tudo isto que narro numa única frase, mas que encerra tanto, o desporto deu-me mais do que a si próprio.

O que falta a Portugal
Contudo, creio que falta algo (muito) a Portugal para se converter numa potência Paralímpica.
Contentar-me-ia, aliás, com uma meta mais tangível e importante: um país com uma atmosfera desportiva inclusiva, global desde a infância, que se encavalitasse no desporto para não mais o largar — tanto como ferramenta de integração e expressão corporal e social dos jovens (com ou sem deficiência), como foco prioritário enquanto espetáculo competitivo.
E não, não é um desperdício de dinheiro dos contribuintes. Quem investe a montante, colhe a jusante. E vice-versa. Paradoxal? Nem por isso.
Os atletas profissionais e as grandes competições constituem a primeira política de incentivo à prática desportiva.
O cultivo de referências como alavanca para a iniciação desportiva. Vimos esse efeito de contágio com “Os Lobos”, no Rugby, em 2010, ou com as prestações a “tocar o céu” de João Sousa, no Ténis.
O problema está na base
No desporto Paralímpico, a minha experiência diz-me que a falta de cultura de base, de estratégias governamentais e federativas de captação de atletas — estamos tão reféns do passa a palavra! —, o eclipse das crianças e jovens com deficiência (na sua maioria) da Educação Física ou do Desporto Escolar minam qualquer pretensão do país de se arrogar inclusivo.
Os praticantes chegam tarde aos clubes, que por sua vez são insuficientes em infraestruturas, orçamento ou recursos humanos qualificados para acolher quem nunca praticou aquele desporto.
Foi muito do que me moveu a criar a equipa de BCR do Basket Clube de Gaia e centrar-me, nos primeiros quatro anos do projeto, em cativar jovens para a modalidade — sem pressa, sem patrocinadores, sem instituições mecenas sedentas do rótulo inclusivo projetado na ribalta.
Com tempo para cada um crescer.
Ironia das ironias: também o meu voluntarismo e saúde mental acabaram por extinguir-se.
A partida para o FC Porto foi um passo natural, à procura da sustentabilidade que nunca tive, apesar de tantas boas pessoas se terem cruzado no meu caminho.

A ilusão do sucesso
Por isso, a ideia que nos plantam a cada quatro anos — de que somos uma bússola no desporto Paralímpico, e que “até ganhamos mais medalhas do que os normais” — não passa de uma patranha.
Confunde-se, amiúde, o espírito crítico que tenho pelo que mais amo — o desporto — com o desdém por outras modalidades.
Mas creio que é altura de fazermos as perguntas nevrálgicas:
Um país sem preocupação pelo aumento de praticantes de desporto para pessoas com deficiência pode, sistematicamente, embarcar na ilusão de criar novas modalidades?
Porque é que Portugal não tem nenhuma representação de uma modalidade coletiva nos Jogos Paralímpicos?
Não será porque todos pescamos no mesmo pedaço de mar e “roubamos” o peixe uns aos outros?

A cultura do faz-de-conta
Para mim, este diagnóstico é importante e o que nos separa do topo.
Não é possível termos Futebol para Cegos e Goalball sem um número suficiente de cegos a praticar desporto.
Não é possível almejarmos os patamares de elite no BCR, ACR e ainda haver burburinho quanto a possibilidades como o Voleibol Sentado ou o Futebol para Amputados sem um projeto pensado para expandir a quantidade de atletas.
No que desemboca esta cultura do “faz-de-conta” — que a espaços nos leva a umas condecorações infladas de hipocrisia em Belém — é simples:
Há uma amálgama de expetativas entre aqueles que praticam desporto juntos, por recreação, terapia ou competição.
E, no fim, temos uma mão cheia de nada.
Enquanto as modalidades estão num estado incipiente, Portugal vai fazendo uns brilharetes.
Mas… e quando os graúdos entram em força, o que nos acontece?
Há 30 anos, contava-me o Jorge Almeida, a APD Lisboa batia-se de frente com muitas equipas espanholas.
Hoje, nenhuma equipa de BCR portuguesa é remotamente capaz de discutir um minuto de jogo com qualquer formação do primeiro escalão do país vizinho.
Mensagem final da TSimetria
O desporto é mais do que terapia.
É também palco, suor, vitória e frustração.
É também espaço para o talento, a disciplina e o sonho — com ou sem deficiência.
E talvez seja tempo de deixarmos de “aplaudir a diferença” para começarmos a investir na competência.
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Um abraço,
Joao Aires, TemperSimetria.