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A desconstrução do Capacitismo

Quantos de vós já ouviram falar da palavra “Capacitismo”? Poucos, creio. Talvez se a escrever em inglês vos seja mais familiar: Ableism. Provavelmente continua a ser um termo desconhecido para muitos.

Capacitismo é a palavra encontrada para definir toda e qualquer discriminação contra a pessoa com deficiência. Dito desta forma pode parecer algo extremamente vago e difuso, mas é muito patente na nossa sociedade do presente, do passado e, espero eu, cada vez menos na do futuro.

O Capacitismo encontra-se em todas as camadas da nossa sociedade, de uma forma muito enraizada, profunda e difícil de desconstruir. Está nas barreiras físicas, atitudinais e de oportunidades que a pessoa com deficiência encontra no seu dia-a-dia, constantemente.

Porque sou uma pessoa com deficiência motora, desloco-me em cadeira de rodas, falo-vos aqui das principais barreiras que enfrento, algumas transversais a todas as pessoas com deficiência, outras nem tanto.

Começando pelas barreiras físicas posso referir alguns exemplos como a falta de acessibilidade que é muito frequente encontrar diariamente. A falta de rampas de acesso, de pisos confortáveis e acessíveis a todos, de casas de banho devidamente adaptadas, de elevadores, entre muitas outras.

No entanto, para mim as barreiras mais incapacitantes não são aquelas que vemos, mas sim as que sentimos, como as barreiras atitudinais. De facto, a forma como a sociedade perceciona a pessoa com deficiência é o que mais nos invisibiliza e incapacita. Somos vistos como incapazes, dependentes, um fardo.

É frequente que nos infantilizem, falem connosco como se fossemos crianças e como se não tivéssemos voz e vontade própria (até o tom de voz muitas vezes é infantil quando se dirigem a nós, acreditem ou não). Assuntos como a nossa sexualidade, relações amorosas, construção familiar são assuntos tabus para a grande maioria da sociedade, como se estas áreas não pudessem ser vivenciadas por nós.

Raramente as pessoas que nos rodeiam, salvo algumas exceções, entendem que nem sempre precisamos de ajuda, que “ajudar” uma pessoa com deficiência quando ela diz claramente que não necessita, só reforça a sua invisibilidade e é uma atitude capacitista.

Também a integração no mercado de trabalho é hoje em dia capacitista. Infelizmente a pessoa com deficiência é, no dia de hoje, discriminada na integração no mercado de trabalho única e exclusivamente porque tem uma deficiência, sendo completamente ignoradas as suas qualificações e o seu potencial, desconsiderando as suas necessidades específicas.

Por outro lado, muitas pessoas com deficiência que conseguiram a integração no mercado de trabalho sofrem de um efeito que designo de “sub-emprego” onde se verifica que a exigência para com elas é muitas vezes inferior, não porque estão a considerar as suas capacidades, mas porque são pessoas com deficiência de “quem se deve ter pena e mais paciência, não se pode exigir tanto”.

Infelizmente, muitas outras barreiras e outros exemplos de capacitismo vos poderia trazer aqui. Mas gostaria de encerrar esta partilha com uma mensagem otimista e de confiança.

Enquanto pessoa com deficiência desde há 9 anos e, portanto, tendo sido uma pessoa sem deficiência durante 27 anos da minha vida, sinto na pele a forma contrastante como a sociedade me vê. Mas não aceito isso. E acredito que todos nós, com ou sem deficiência, temos a possibilidade de mudar essa visão.

Somos, fomos ou seremos capacitistas. Todos. Porque crescemos e nos formamos numa sociedade que o é.

Mas podemos desconstruir o nosso capacitismo. Ouvindo as pessoas com deficiência. Proporcionando nos nossos espaços, lugar para as pessoas com deficiência.

Promovendo a sua representatividade.

Ajudando a pessoa com deficiência, ao seu lado (não à frente, não atrás), a desconstruir as barreiras e o capacitismo.

Não queremos aplausos, não queremos ser inspiração por ultrapassar um degrau. Queremos que te juntes a nós, na destruição desta barreira e na construção de uma “rampa”.

Não queremos o “deixa que eu ajudo”, queremos acessibilidade, equidade e independência.

Catarina Oliveira